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O fato se deu nos meados dos anos 70. Eu estudava em uma escola da região do Grande Méier. Na saída, após uma manhã normal de aula, recebemos a “notícia” que perto dali, populares haviam amarrado um “ladrão” no poste da rua e o estavam linchando.
Quase todos os alunos, seguiram como de costume, em direção às suas casas, mas, dois ou três tomaram a decisão de ir assistir ao linchamento.
Na manhã seguinte no reencontro na escola, especialmente no horário do “recreio”, os que foram “assistir” ao linchamento, contaram detalhes do horroroso fato, e, para nossa surpresa, que um dos colegas, apelidado de “japonês”, havia até participado, dando inclusive uma “paulada” na perna do “ladrão” já quase morto.
A polícia, por mais inacreditável que possa parecer, naqueles tempos ainda demorava mais a atender os chamados, e só chegou ao local do linchamento quando o ladrão já estava de fato morto e parcialmente com o corpo queimado.
O tempo passou, e nós, de adolescentes assumimos a condição de jovens adultos, e a maioria de nós, integrantes daquela turma, continuamos a estudar, nos profissionalizamos, constituímos nova família, e seguimos assim, com nossos erros e acertos, qualidades e defeitos, dentro de uma normalidade de conduta, como cidadãos e “seres humanos”.
Mas, dois ou três, se “desviaram” dessa meia normalidade, e caíram nas teias do crime.
Um caiu nas garras do vício da cocaína, outro se enredou no estelionato, e, o “japonês”, logo o “japonês”, um dos “justiceiros” do ladrão amarrado ao poste, morreu baleado pela polícia, quando tentava fugir após assaltar uma “birosca”.
Espanta ver a carga de violência e ódio que as pessoas destilam após esse trágico fato em Realengo. Não aprenderam nada com a dor e o horror do acontecido.
É COMPREENSÍVEL o estado de choque, e até a inconformação diante do ocorrido. Aos familiares e amigos das vítimas, mais ainda se deve dar o devido desconto pelo desespero, afinal, a dor lacerante por que passam é algo inimaginável.
Mas, daí a ir em direção de pixar a casa da família do autor do crime, daí a expressar as mais cruéis manifestações de vontade de fazer dele “picadinho”, no melhor estilo “mata esfola” do olho por olho, vai uma grande diferença.
Cuidado ! O vírus da falta de apreço pelo que significa a vida, e a falta de respeito por elementares normas de convivência e conduta legal, pode estar dentro do “coração” de quem assim se manifesta. Vingança e ódio são caminhos de perdição. Cegam e levam em nome das mais absurdas justificativas e causas, a atos como o perpetrado por “Wellington”.
Devemos sempre repudiar e nos indignar com atos violentos e injustos, entretanto, quanto aos que o cometem, é preciso ter o devido cuidado, para não nos igualarmos na conduta bárbara e rasteira. O crime será sempre condenável, o criminoso sempre um doente necessitando de reclusão e tratamento, a devida punição como necessário e amargo remédio.
Tenhamos em mente, com a devida cautela diante das ciladas da vida, que nenhum de nós, ou algum de nossos entes queridos, está imune de sofrer algum episódio de surto, tenha ele o nome científico ou religioso que se dê, e “tropeçar”. Tenhamos ainda a certeza que onde alguns caem e se “ralam”, estivéssemos nós naquele caminho, poderíamos sim “tropeçar e cair com mais força”.
Com o erro não podemos ser tolerantes, mas, não podemos nos arvorar o direito de “linchar” quem erra.
Com a mesma régua que medirmos os outros, seremos medidos.
Dizem que o “japonês”, ao cair baleado pediu clemência e alegou que aquele era o seu primeiro ato de roubar. Recebeu como resposta um segundo tiro, eufemisticamente chamado de “misericórdia”.