quarta-feira, 16 de setembro de 2009

RIO DE PAZ - ENTREVISTA COM O PRESIDENTE DE UM MOVIMENTO QUE TRABALHA PELA VIDA E PELA PAZ


Essa entrevista é publicada no dia em que vários episódios graves na questão de segurança e violência acontecem na Cidade do Rio de Janeiro.

Um perigoso traficante recebe o direito de sair do presídio para trabalhar e evidentemente não retorna como determinado, dois policiais militares são mortos no bairro de Todos os Santos, vários apartamentos são assaltados em prédios de Ipanema e Tijuca, um funcionário do TRT é morto durante assalto na Zona Sul, uma família passa horas em poder de traficantes que a tomaram como refém na Vila Pinheiro tentando escapar da Polícia, e um violentíssimo tiroteio ocorre numa guerra entre facções no morro do Juramento, com vários mortos e feridos, entre eles profissionais da imprensa.

É nesse cenário, o cotidiano de uma cidade sem paz, o Rio de Janeiro, que publicamos a palavra do representante do “Rio de Paz”.



1) Como o Rio de Paz vê a crítica de parte da sociedade as ONGs, de que essas Organizações só se preocupam com os criminosos e não com os cidadãos que são suas vítimas?

A crítica, em parte, tem sua razão de ser. Quando se lida com problemas sociais com base em ideologias para as quais não há sustentação racional, baseadas em uma leitura da vida reducionista, determinista e romântica, capaz de botar todo o peso da responsabilidade das ações humanas na conjuntura política econômica, eliminando a responsabilidade individual, estabelece-se a possibilidade de inocentar o culpado e relativizar o sofrimento da vítima. Creio em responsabilidade diminuída, mas não vejo como crer em responsabilidade eliminada.
O que há de equivocado na crítica que é muitas vezes feita às ONGs, é que preocupar-se com os direitos do criminoso é preocupar-se com os direitos de todos, pois num mundo onde a vida nos surpreende em tantas ocasiões, levando-nos através de inúmeros reveze, até mesmo a comportamento irracional, a última coisa que desejaríamos é que além de lamentarmos pelo nosso erro e recebermos todo o peso esmagador do estado amparado pela lei, recebêssemos uma espécie de tratamento que eliminasse toda esperança de soerguimento moral e social. Vale à pena pactuarmos uma sociedade cruel, na qual direitos não são respeitados? É bom viver assim? Veja o sistema prisional. Queremos campo de concentração para o preso, mas quando um filho vai parar numa instituição prisional, tratamos de tentar corromper o agente do poder público, para que ele não sofra como os demais encarcerados.Acima de tudo, o principal motivo é a santidade da vida humana. Não há nada mais precioso na vida do que o ser humano. Sua vida deve ser tratada à altura da dignidade que lhe é intrínseca - mesmo no seu pior momento.

2) Como vocês avaliam a adesão e receptividade as manifestações contra a violência?

A adesão está aquém do necessário para exercermos uma pressão popular sobre o poder público capaz de fazer a lei ser cumprida, a incompetência confrontada e o abuso de poder banido. Quando pensamos, porém, no nosso crescimento recente, com alegria constatamos os seguintes fatos:

Somos em número bem maior do que quando começamos.
O número atual de voluntários nos permite organizarmos manifestações contra a violência em qualquer ponto da cidade e num prazo curtíssimo de tempo.

Devido à heterogeneidade do grupo, podemos agir nas áreas mais diferentes e tratarmos dos problemas sociais, violações dos direitos humanos e violência, sob os mais diferentes ângulos, usando as mais diferentes habilidades.

A contribuição financeira desses voluntários nos permite trabalhar sem precisarmos usar verba pública – o que é proibido pelo nosso Estatuto. Jamais haverá de acontecer de não falarmos o que pensamos porque dependemos do governo para viver.

A receptividade não poderia ser melhor. Em todas as nossas manifestações temos podido contar com o apoio da maior parte da população. A mídia tem agido como parceira fiel, propiciando cobertura surpreendente para nossas manifestações. Até a polícia e o próprio governo nos tratam com respeito.

Creio que isso, se deve ao fato, de nunca tumultuarmos a cidade, não insultarmos autoridades públicas, falarmos com base em evidências e jamais a partir de suposição infundada e não estarmos lutando por uma causa qualquer de um grupo isolado – o Rio de Paz luta pela erradicação do maior problema social do presente momento da nossa história, as mortes violentas.

3) O que marcou mais no trabalho de vocês na Penitenciária de Neves
Em primeiro lugar, a condição dos presos. Ninguém que vá à Polinter de Neves, deixa de voltar para casa perturbada – a não ser gente que tem natureza de andróide. Nós não temos autoridade moral para criticarmos o Nazismo, porque numa extensão embora menor, fazemos em parte as mesmas coisas. Em seguida, marcou o trabalho dos voluntários. Vi gente de classe média e classe alta, cuidando dos presos com lágrimas de compaixão não romântica nos olhos. Nossos médicos, dentistas, advogados, pesquisadores e pessoal da faxina e pintura, trabalharam duro, sem esperar nenhum retorno, exceto o da alegria de tratar seres humanos com dignidade. Por fim, a atitude dos próprios presos. Fiquei, na companhia dos médicos do Rio de Paz, com 250 membros do Comando Vermelho, mais o mesmo número de presos que cometeram delitos de outra natureza, ou pertencentes a outras facções, sendo tratado com absoluto respeito. Não foram poucos os momentos nos quais, enquanto falava, via as lágrimas cortarem os rostos de homens que ouviam mensagens de esperança referente à possibilidade humana de superação pessoal. Nunca mais serei o mesmo depois de Neves.

4) O governo do Estado/SEC. de SEGURANÇA, já recebeu o Rio de Paz, existe diálogo? O episódio da proibição do placar da violência teve qual consequência ?

Eu já fui recebido pelo chefe da Polícia Civil, o comandante da Polícia Militar, o secretário de segurança e o próprio governador. Em todos os encontros, falei o que pensava sem reservas, e fui tratado com cordialidade. Chegamos até a ter reuniões regulares no Instituto de Segurança Pública, com alguns dos melhores pesquisadores do nosso estado presentes a convite do Rio de Paz. Porém, não houve avanço. Na época, queríamos respostas para perguntas que fazíamos, a fim de trabalharmos juntos com objetividade. Indagamos sobre as metas de redução de morte violenta, o planejamento para ser alcançar a meta e o orçamento. Ouvimos que as respostas para esses perguntas não podiam ser dadas, porque o governo não as tinha. Gente morrendo e o governo sem meta e planejamento – sem política de segurança pública. Já chegamos hoje à marca de 20 000 mortes violentas. Indago: esse número era esperado pelo cronograma da Secretaria de Segurança do Rio?

O episódio do Placar da Violência foi lamentável. A subprefeitura da Zona Sul havia liberado o espaço da praia para a utilização, e exatamente na véspera da inauguração, depois de tudo pronto - toda a imprensa avisada e voluntários mobilizados - nos disseram que voltaram atrás por haverem chegado à conclusão de que o placar seria prejudicial ao turismo. Bom, como o nome é Rio de "Paz", não oferecemos resistência.Recentemente, enviei uma carta ao prefeito, solicitando outra área da cidade para o nosso placar. Só que agora com o projeto de um dos maiores designers do nosso país. Ainda não obtive a resposta. Mas, não tem problema - temos braço. Não falta gente disposta a sustentar com as próprias mãos esse Placar da Violência. É o que deve acontecer em breve.


5) Qual o próximo evento, e o que é preciso para conseguir maior divulgação e repercussão desse trabalho.

Estamos próximos da marca (oficial) obscena de 20 000 mortes violentas entre Janeiro de 2007 e Setembro de 2009. Posso lhe garantir que toda a cidade vai ficar sabendo que 20 000 cidadãos foram assassinados.Uma boa forma de nos ajudar é se filiando ao Rio de Paz, a fim de participar das nossas manifestações, conferências, lobby do bem e obras de assistência humanitária aos mais miseráveis do nosso estado. Esperamos vencer a violência, fazer o sangue do carioca custar caro, defender o direito à vida, dar fim ao histórico de desrespeito ao direitos humanos do nosso estado, mas, mediante a utilização das armas da paz, da criatividade, da lei, da razão e do amor.

Antônio Carlos Costa - Presidente do Rio de Paz

O blog agradece ao Presidente do Rio de Paz, Antonio Carlos Costa pela entrevista e aproveita para dar um fraterno abraço em todos os voluntários desse movimento que vem lutando de forma pacífica e ordeira, corajosa e determinada em favor da vida.

Se nós queremos um “RIO DE PAZ”, não há de ser acomodados e omissos que alcançaremos esse objetivo, muito menos criticando quem faz, sem oferecer nenhuma colaboração ou proposta prática, o que aliás é característico dos que não tem vontade ou vocação para fazer.

VISITE O SITE
http://www.riodepaz.org.br/principal.asp
Imagens assim, até quando ?

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15 comentários:

Anônimo disse...

BONDE

Aprecio muito o trabalho do Rio de Paz, e gostei da entrevista. Acho que a população carioca precisa participar mais, falar mais grosso com as autoridades daí.

Um bonito trabalho de seu blog

Amigo do Rio

A. Almeida disse...

Amigo Bond, depois de umas curtas férias, cá me encontro novamente em Portugal, lendo e comentando seus postes sempre em defesa da segurança de pessoas e bens do Rio de Janeiro.
Gostei bastante da entrevista ao Antônio Carlos Costa. Quero porém destacar esta frase:

- A contribuição financeira desses voluntários nos permite trabalhar sem precisarmos usar verba pública – o que é proibido pelo nosso Estatuto. Jamais haverá de acontecer de não falarmos o que pensamos porque dependemos do governo para viver.
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É verdade!
Neste Mundo não existem almoços grátis!!!

Um abraço para todos. Bond, Antônio Carlos e a todos os voluntários simpatizantes e amigos do RIO DE PAZ

Anônimo disse...

BONDe, obrigada pelo apoio. Espero que muitos pontos sejam esclarecedores para aqueles que ainda olham para o movimento com ceticismo.

Abs,

Simone VB

Unknown disse...

Tudo que for feito em nome da Paz sera sempre bem vindo em qualquer lugar do planeta. Essa independência econômica da Rio de Paz é mesmo importante. Sem submissão livre gostei demais. Um abraço meu mestre grato por suas visitas.

OLHAR CIDADÃO disse...

Prezado anônimo das 10:53h

GRATO PELA VISITA, COMENTÁRIO E INCENTIVO.

um abraço

OLHAR CIDADÃO disse...

Américo

Férias bem curtidas (aproveitadas) sim, mas curtas? Eu estava sentindo falta de sua participação.

O seu comentário e incentivo dirigido ao blog e ao RIO DE PAZ são muito importantes e estimulantes nessa caminhada.

Bem lembrado o destaque da independência financeira.

Um abraço

OLHAR CIDADÃO disse...

SIMONE

Eu é que agradeço a sua colaboração para que essa matéria pudesse ser feita. Imagino o trabalhão que é a tarefa de vocês no Rio de Paz.

O blog está aí para colaborar no que for possível.

Um abraço

OLHAR CIDADÃO disse...

Antonio

Grato pela presença meu amigo.

Um abraço

Vincent van Blogh disse...

Excelente entrevista, Bond.

O Rio de Paz com seu trabalho de formiguinha vai aos poucos semeando a plantinha que precisamos.

Parabéns.

OLHAR CIDADÃO disse...

van

Esse tipo de trabalho, voluntário, e que traz um objetivo nobre, porém difícil de ser alcançado a curto tempo, 'UMA CIDADE/ESTADO COM MENOS VIOLÊNCIA" ainda carrega a dificuldade de ter que conviver com críticas sem fundamento, sem nenhum sentido de acrescentar algo positivo, e acima de tudo de um pessimismo e fatalismo impressionante.

É um trabalho árduo esse de labutar nas boas causas.

Um abraço

Unknown disse...

Amigo 007BONDeBlog

Muito interessante e esclarecedora a entrevista com o presidente da "Rio da Paz", sr. Antonio Carlos Costa. Sou da opinião que a sociedade necessita se apresentar, não só criticar mas, sugerir, participar.
Mas, há também que se pensar a respeito da polícia despreparada e mal armada. A polícia também está morrendo e deixando órfãos. O Estado precisa formar melhor seus policiais para que saibam se defender e defender os cidadãos.
Um abraço e tudo de bom!

OLHAR CIDADÃO disse...

Zilda eAntonio

BOA NOITE

Sem dúvida os policiais são vítimas dessa violência também. Uma sociedade mais justa, melhor organizada, que valorize a educação, vai fazer com que os conflitos e a marginalização diminuam. E a polícia não viverá situações tão gritantes de confrontos com criminosos armados.

Um abraço

Anésia disse...

ZildaAntonio,

O dia em que houver uma mulher controlando os gastos do governo não faltará dinheiro para pagar dignamente policiais, professores, médicos, funcionários público capazes, aposentados, pensionistas e outros
Falando em funcionários públicos precisam acabar com os que entram "pela janela" e leis que possam demití-los qualque funcionário por justa causa...
Poderia me extender pela capacidade das mulheres provadas cientificamente de que seu cérebro é mais capacitado à realizar mais tarefas dos que os homens...
Pesquisarei esses estudos e farei um post com esse assunto.
É preciso mais mulheres na política!
Digo; mulheres, não "imitações" de mulheres como Rosena Sarney e algumas outras...
Abraços.
PS. Ainda não consegui entrar no seu blog mesmo tendo-o copiado como tenho de outros...

OLHAR CIDADÃO disse...

ANÉSIA

Funcionários públicos podem ser demitidos.

O que não pode é fazer isso por perseguição.

Um abraço

Anônimo disse...

Bond,

Perseguição?...
Eu nem pensei nisso mas agora penso;
perseguição existe em qualquer área onde se trabalhe...
Podem ser demitidos?...
Eu não sabia disso.

Só me lembro que no IPERJ havia em quase todos os andares uma tabuleta em que estava escrito + ou - isso;

QUALQUER QUE AGREDIR UM FUNCIONÁRIO ESTARÁ SUJEITO À LEI "XYC"

Porque essas tabuletas?
Eu sabia porque existiam...
A maioria dos funcionários tratavam muito mal os que lá chegavam...
Freqüentei aquela "pocilga" anos, e ainda com a ditadura eles se julgavam acima do bem e do mal...
Exceção?...Havia claro! Raras!!!

Só de comentar meu sangue sobe...

Um dia resolvi reagir pacificamente como o RIO DA PAZ (isso depois que acabou a ditadura)sentei numa poltrona às 12 hs e disse que só sairia dali depois de ser atendida, esse dia o IPERJ fechou às 18 hs...
A "boa notícia" dita pela boca de uma procuradora do IPERJ é que me eu devia procurar a JUSTIÇA...

Fico por aqui porque esse assunto "rola" até hoje...
Já mudaram até de nome e de local essa "pocilga" que conheci...
Vocês funcionários públicos que se cuidem!...
Eu sou apenas viúva de um...

Assino anônima porque a "coisa" ainda acabou...

Abs